Por Karol Lopes 

Juntas elas formam o Gal’sat The Sea, mais um grupo de mulheres que se uniram pelo amor ao surf e que tive a honra de bater um papo sobre surf e empoderamento feminino, além de outras coisas. Vem conferir!

Como e quando surgiu o Gal’sat The Sea?
O Gals surgiu há mais de 15 anos em Ubatuba, litoral norte de São Paulo, quando começamos a surfar. Éramos um grupo de 12 meninas bem amigas que surfavam e cursavam Educação Física. Nessa época, começamos a nos chamar de girls. Anos depois, boa parte das girls começou a trabalhar com surf, enquanto outras seguiram outros caminhos e profissões, mas todas continuamos surfando juntas sempre que era possível. Em 2013 tivemos a ideia de criar um Instagram do grupo, com as melhores fotos de surf de cada girl, que registravam nossas aventuras pelo Brasil e pelo mundo em busca das melhores ondas. Colocamos o nome de Gal’sat The Sea. Com o passar do tempo, muitas meninas vinham nos perguntar sobre aulas de surf, dicas de surf trip, pediam treinos e assim nasceu o Gal´s na forma de clínica de surf feminino, com imersões de surf para mulheres que queriam aprender a surfar ou viver um pouco desse lifestyle.

Quem teve a ideia do nome e porquê?
Entre nós, já nos chamávamos de Gal´s, que é uma referência a girls. Daí em diante, uma começou a chamar a outra de gal e assim ficou até hoje. Todas as meninas que vem para uma imersão de surf com a gente, acaba pegando a gíria também e quando vemos, está todo mundo se chamando de gal. É muito legal porque acaba sendo algo só nosso.

Quem são as “garotas” que procuram do Gal’sat The Sea? O que elas buscam? (aprender a surfar por hobby, para ser uma profissional, por qualidade de vida, etc.)
São mulheres de todas as idades e de todo o Brasil, uma mistura linda! Com vários níveis de surf, desde de mulheres e garotas que nunca surfaram ou tiveram algum contato o surf, até quem também já tem um nível mais avançado e quer ter mais conhecimento técnico para a evolução no esporte. Boa parte dessas meninas buscam viver uma experiência diferente e divertida, amizades, autoconhecimento, melhorar da autoestima, entre outras coisas. Mas acreditamos que a maioria vem mesmo é em busca do sonho em deslizar sobre as ondas.
O legal dos surfs camps é que fazemos um trabalho voltado para o público iniciante e intermediário nos mesmos moldes dos treinos feitos por atletas, fazendo com que essas meninas consigam evoluir de verdade nas ondas e onde elas se sintam tão importantes e assistidas como verdadeiras surfistas. Além de pegar forte com o treinamento, oferecemos também aulas de yoga, exercícios funcionais, algumas vivências diferentes como skate, sandboard, muay thay, tetha healing, ou seja, as meninas vêm pra surfar e acabam tendo um fim de semana “detox”, com muito surf e atividades saudáveis e com a cara das Gal´s.

Hoje se fala muito em empoderamento feminino e como as mulheres estão ocupando seus espaços em vários cenários. Como vocês enxergam o surf feminino e a presença das mulheres nesse segmento?
Até pouco tempo atrás, o mar era dominado pelos homens e as mulheres sempre tinham um papel coadjuvante como a “gata da praia”, ou a namorada que ficava na areia vendo o namorado pegar onda. Hoje, isso está mudando e a cada dia vemos mais meninas começando a surfar, viajando em busca de ondas e juntas explorando seus limites. Ganhamos muito espaço nos últimos anos, mas ainda estamos atrasadas em relação aos homens no mundo do surf. Se você olhar, de cada 10 surfistas na água apenas 1 ou 2 são mulheres.
Apenas recentemente a WSL igualou a premiação do campeonato masculino e feminino, ou seja, faz pouquíssimo tempo que a categoria feminina teve seu reconhecimento por uma entidade do esporte. Mas mesmo como muita luta, ainda estamos longe do ideal, muitas meninas estão em busca de patrocínio e o foco das marcas ainda continua sendo as surfistas mais bonitas e não necessariamente a que melhor performa.
Acreditamos que o surf vai além de ser apenas um esporte, ele também é uma terapia, uma atividade incrível para ajudar no autoconhecimento e é um aliado importantes para as mulheres conquistarem autoconfiança e acreditarem nelas mesmas. Muitas vezes não encaramos as coisas por vergonha, por não está dentro dos padrões estabelecidos e deixamos de experimentar algo novo, de sair do convencional. Fomos doutrinadas a seguir um caminho e acreditamos o surf vem para quebrar paradigmas, ele é uma importante ferramenta de empoderamento.

Quem vocês mais admiram dentro do surf feminino?
São muitas as mulheres que nos inspiram, dentre elas as principais puxando bem antigamente. A Princess Ka’iulani a última princesa havaiana que durante a integração do Havaí aos Estados Unidos, lutou pela preservação da cultura do seu povo. Quando os americanos proibiram qualquer forma de manifestação cultural havaiana nessa época, a princesa pegou sua prancha e foi surfar como uma forma de protesto. Admiramos muito a Lisa Andersen, que fez com que o mercado começasse a enxergar a mulher como consumidora no surf. Quando começamos a surfar, a Lisa já era muito famosa e conhecida, ela era “O” nome do surf feminino. Competindo entre os homens e algumas vezes ganhando deles, Lisa mudou a cara do esporte para as mulheres, ela era o verdadeiro poder do surfe feminino.
Nos dias atuais, a Stephanie Gilmore nos inspira muito, com seu surf clássico, agressivo e alongado que se tornando um verdadeiro “balé” sobre as ondas. Gilmore nos surpreende e emociona até hoje nas baterias dos campeonatos mundiais, e é ela a dona de um dos estilos de surf mais lindos do mundo!
Entre as brasileiras, somos muito fãs da Tita Tavares, que sempre foi uma guerreira do surf nacional e que sempre teve que lutar contra os paradigmas do padrão surfista “loira e linda”. A Tita sempre levantou a bandeira contra esse estereótipo e lutou contra a falta de patrocínios para surfistas que não se encaixavam no estilo ”menina Australiana”. Também gostamos muito de ver a Maya Gabeira e a Nicole Pacelli surfando. Elas quebram nas ondas grandes e nos surpreendem com tanta coragem e determinação. São verdadeiras musas das ondas gigantes.

Qual a maior dificuldade que vocês enfrentam hoje para manter o projeto “vivo”?
Algumas pessoas pensam que o nosso projeto vai fazer com que haja mais crowd nas praias e nas ondas, mas não é verdade. Para começar, o surf é para todos, o mar é de todos. Já percebemos que algumas pessoas se incomodam com a nossa chegada à praia, já que sempre chegamos em um grupo consideravelmente grande. Mas, com certeza o que mais nos deixa triste é quando percebemos uma falta de credibilidade no trabalho feito por mulheres dentro do surf. Isso já aconteceu até por parte de mulheres mesmo. É como se uma mulher não pudesse falar ou ensinar surf, ser uma boa técnica. Ainda encontramos aquelas pessoas que “torcem o nariz” para as nossas dicas. Já tivemos inclusive alguns casos de alunas que só prestavam atenção ou levavam em consideração as dicas dadas pelos meninos da equipe. Mas isso graças a Deus é a minoria.

Qual foi a maior “aventura” que viveram até hoje com o projeto?
Quando fomos para a Nicarágua, o país estava em guerra civil e tivemos que fazer uma longa travessia para chegar ao litoral na região de Leon, onde ficaríamos para surfar. Assim que chegamos, o guia teve que pegar estradas paralelas de terra e por caminhos mais longos. Não tivemos nenhum problema, mas estávamos tensas perante àquela situação. Sabíamos que o litoral não era uma zona de conflito, mas o caminho foi bem tenso. Mas acabou valendo a pena, pois surfamos muito com o mar praticamente nosso e da maioria dos nativos e eles foram muito hospitaleiros e gentis nos deixando pegar boas ondas.

Tem algum lugar que vocês ainda não estiveram e gostariam de estar com o projeto?
Sim, vários! Nosso sonho é fazer uma trip pra Mentawai, em um barco só pra gente, onde pudéssemos escolher as nossas ondas sem ninguém palpitando (rs). Queremos também levar nossas meninas pra Jamaica, para o México e muitos outros lugares que já estivemos e temos certeza que nossas gal´s iam se amarrar estar.

Até onde pretendem chegar?
Pretendemos ser uma rede de mulheres em todo o Brasil, conectadas pelo surf e pela magia que ele traz. Queremos poder cada vez mais mostrar que o treinamento, independente do seu nível de surf, pode ajudar muito na evolução.
Queremos acima de tudo, que as mulheres sejam o que elas quiserem ser, e que elas se libertem de tudo que aquilo que as reprimem de alguma forma. Desejamos que o surf seja uma arma de libertação para cada mulher.

Que dicas vocês podem dar para quem quer subir pela primeira vez em uma prancha?
Procurar um profissional, seja uma escolinha de surf, um professor particular ou projetos como o nosso. As primeiras aulas são fundamentais para começar a surfar, além do mar ser um lugar que requer conhecimento, as pranchas podem ser perigosas, e ao começar sozinha, você pode se machucar e ficar traumatizada, deixando um sonho tão lindo de lado. Com um profissional, você vai conseguir surfar de verdade e ter auxílio para que tudo ocorra bem na primeira fase, que é a mais importante.

Surf é?
O surf é amor, é libertação, é algo que muda e dá um direcionamento a vida de qualquer um. No mar, a gente consegue relaxar, deixar de lado os problemas, viver um outro lado da vida, enxergar tudo com tons mais azuis. Lá vemos a vida por outro ângulo, outra dimensão. O surf pra gente é cultura!

 

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