Ciclone na Costa Causa Polemica Entre Especialistas

Fonte MetSul Meteorologia

O ciclone inicialmente extratropical que se formou junto à frente fria adquiriu características atípicas entre a tarde e a noite da segunda-feira na foz do Rio da Prata. O ciclone segregou da frente fria, ou seja, deixou de estar conectado à frente e passou a se deslocar independente da trajetória do sistema frontal. Além disso, ganhou organização e passou a apresentar convecção ao redor do seu centro de circulação, inclusive formando um olho.

A Diretoria de Hidrografia Naval da Marinha do Brasil (DHN) em sua carta sinótica das 21h de segunda-feira (0Z) classificou o ciclone na costa do Uruguai e a Sudeste do Chuí como uma tempestade subtropical, ou seja, um ciclone híbrido, com centro quente em superfície e frio em altitude. A pressão indicada era de 988 hPa com vento sustentado de 45 nós (83 km/h) e rajadas de 50 nós (93 km/h).

Em boletim, entretanto, a agência meteorológica dos Estados Unidos (NOAA) indicou que o sistema passou por uma transição de subtropical para tropical (centro totalmente quente) na noite da segunda-feira. O comunicado observa a formação de um olho no sistema após 20h30 da segunda (hora de Brasília) e o resfriamento dos topos das nuvens ao redor do centro de circulação (CDO), indicando uma intensificação por convecção (instabilidade).

POLÊMICA NA COMUNIDADE METEOROLÓGICA

O informe da NOAA imediatamente detonou entre os meteorologistas enorme debate sobre a formação de um ciclone tropical em pleno mês de junho, em latitudes tão ao Sul quanto o Uruguai (37ºS e 52ºW) eram as coordenadas informadas pela NOAA na noite da segunda, e ainda em meio a uma poderosa onda de frio. O espanto da comunidade meteorológica com um ciclone tropical na atual cenário meteorológico da região se justifica. Veja os principais motivos:

– Ciclones tropicais tendem a se formar sobre águas quentes, em regra com temperatura superficial do oceano de 27ºC ou mais. Agora, a temperatura do mar onde o sistema se formou está ao redor de 17ºC.

– Ciclones tropicais tendem a se formar nos meses de verão, ou no final da primavera ou no começo do outono. Este tipo de ciclone é uma absoluta excepcionalidade no inverno. No Atlântico Norte, em um século e meio de dados, foram apenas 77 ciclone subtropicais ou tropicais em dezembro (primeiro mês do inverno setentrional que corresponderia ao nosso junho) e 4 em janeiro (o equivalente ao nosso julho) e estamos quase na virada do mês para julho.

– Ciclones tropicais tendem a se originar em áreas entre os trópicos e, então, evoluem para áreas subtropicais. Excepcionalmente, no Atlântico Norte, se forma mais ao Norte. No caso do Atlântico Sul, todos os ciclones tropicais até hoje documentados tiveram origem na costa do Brasil. Não há precedentes de ciclogênese tropical em latitudes tão ao Sul quanto o Rio da Prata.

– Ciclones tropicais tendem a se formar em meio a uma atmosfera quente e úmida. Este ciclone se originou em meio a uma poderosa massa de ar polar antártica com frio muito intenso e neve até em locais pouco acostumados ao fenômeno.

Uma vez admitindo-se que a classificação do NOAA esteja correta, e a NOAA muitas vezes no passado já revisou a classificação de tempestades no Atlântico Norte em pós-análise, trata-se de um fato tão singular, incomum e do ponto de vista meteorológico esdrúxulo que por analogia seria como se ciclone tropical se formasse na costa Nordeste dos Estados Unidos, junto à Nova York ou à Nova Inglaterra durante o inverno enquanto uma grande onda polar trazendo neve e frio muito abaixo da zero na região.

Tal qual se dá agora com os meteorologistas da América do Sul, os meteorologistas norte-americanos ficariam estupefatos, mesmo sendo comuns ciclones tropicais na costa Nordeste dos Estados Unidos, o que não é o caso do Uruguai e torna ainda mais incomum a situação atual.

UMA TERCEIRA HIPÓTESE PARA O CICLONE ATUAL

O boletim da NOAA identificou o sistema como o tropical. A Marinha do Brasil entende que é tropical. Na opinião da MetSul, a hipótese de ser um ciclone extratropical terá que ser avaliada nos vários trabalhos que certamente estudarão este sistema na academia.

Por que a hipótese de ser um ciclone extratropical, comum e freqüente no Atlântico Sul, não pode ser desconsiderada? Em ciclones extratropicais que passaram por ciclogênese explosiva (bomba) ou são intensos, como é o caso deste sistema que é intenso e chegou a ter pressão de 979 hPa a 980 hPa na costa da província de Buenos Aires, é comum que no centro da tempestade marítima se forme o que a literatura técnica chamada de warm seclusion ou em tradução livre aprisionamento de ar quente no seu centro.

 

QUAIS SERÃO OS SEUS IMPACTOS?

O ciclone trouxe vento de mais de 100 km/h para o litoral de Maldonado, no Uruguai, ao longo da segunda-feira com estragos em Punta del Este. A MetSul não antecipa com base nos dados atuais riscos de gravidade para o Sul do Brasil na evolução deste sistema, salvo uma alteração surpreendente de cenário.

À medida que o ciclone estiver mais próximo do Estado nesta terça, muitas nuvens vão estar no Rio Grande do Sul, sobretudo no Sul e na Metade Leste do Estado com chance de precipitação isolada. Como a circulação ciclônica vai coincidir com a parte mais intensa do ar polar amanhã, fenômenos invernais são possíveis com a presença de nuvens de maior desenvolvimento vertical da circulação do ciclone.

 

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